O filho chega a casa e a mãe rende-se à sua existência.
O filho tem o poder de consagrar as horas, de multiplicá-las. O silêncio fica rodeado. A mãe pensa que não tem como sentir-se só.
O filho espalha-se pela casa. Das 17h às 22h mãe e filho vivem-se e o mundo todo ganha um sentido. A mãe vê-se a sorrir através do espelho retrovisor do carro, ao olhar para o filho.
E o filho pressente que a mãe é todo o espaço.
A mãe sente-se tocada visceralmente pela palavra mãe. A cada apelo, a cada vez que o filho repete e repete Mãe Mãe Mãe. A mãe inaugura-se. Diz que se sente maravilhada.
A história do menino Jesus não é tão bonita.
A mãe sente-se impressionada. Diz que vive. Diz que não consegue escrever porque estas coisas não lhe saem pelos dedos. A mãe vive, reproduz e retem, e passa o resto da vida sem dizer.
A mãe não pode faltar à porta da escola.
A mãe é pontual. Pode falhar mas não quer. O amor constrói-se de muitas esperas.
E a mãe só vê o filho. E nos olhos de cada mãe, esta cena repete-se. A mãe, com tantos filhos, só vê o dela. Não é por ser criança, é por ser o seu.
Nisto que se escreve, escreve-se apenas a mãe. Mas na realidade, é o filho.
Porque a mãe comove-se neste derrame.
Tudo se resume a uma geografia interior. A mãe passa muito tempo sem falar de si própria. Assume um papel secundário.
A mãe a mãe a mãe.
A mãe oscila entre movimentos de extrema redenção, entre movimentos de extrema culpa.
A mãe sabe muitas vezes das causas mais violentas que justificam a sua maternidade. A sua suposta dificuldade. A mãe enquanto mulher sente-se repartida, e só assim se retrata. Por dentro. Na sua geografia.
A mãe conforta-se no aconchego que dá ao filho. Reparte-se.
As horas passam nesta relação, num ritmo que não é cardíaco, mas que se vive no coração.
A mãe transporta nas mãos o filho e todos os objectos de aconchego. Transporta-se sem qualquer noção do seu peso, da sua exacta medida nisto tudo.
À medida que o filho cresce, a mãe afasta-se do seu passado e encontra nas causas presentes o sentido da sua penitência. Tem então que saber transformar toda a dor. Trata-se do acrescento de duas letras depois de subtrair uma. Porque queremos falar de amor.