Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
...

 

O filho chega a casa e a mãe rende-se à sua existência.

O filho tem o poder de consagrar as horas, de multiplicá-las. O silêncio fica rodeado.  A mãe pensa que não tem como sentir-se só.
O filho espalha-se pela casa. Das 17h às 22h mãe e filho vivem-se e o mundo todo ganha um sentido. A mãe vê-se a sorrir através do espelho retrovisor do carro, ao olhar para o filho.
E o filho pressente que a mãe é todo o espaço.
A mãe sente-se tocada visceralmente pela palavra mãe. A cada apelo, a cada vez que o filho repete e repete Mãe Mãe Mãe. A mãe inaugura-se. Diz que se sente maravilhada.

A história do menino Jesus não é tão bonita.

A mãe sente-se impressionada. Diz que vive. Diz que não consegue escrever porque estas coisas não lhe saem pelos dedos. A mãe vive, reproduz e retem, e passa o resto da vida sem dizer.

A mãe não pode faltar à porta da escola.
A mãe é pontual. Pode falhar mas não quer. O amor constrói-se de muitas esperas. 
E a mãe só vê o filho. E nos olhos de cada mãe, esta cena repete-se. A mãe, com tantos filhos, só vê o dela. Não é por ser criança, é por ser o seu.

Nisto que se escreve, escreve-se apenas a mãe. Mas na realidade, é o filho.

Porque a mãe comove-se neste derrame.

Tudo se resume a uma geografia interior. A mãe passa muito tempo sem falar de si própria. Assume um papel secundário.

A mãe a mãe a mãe.

A mãe oscila entre movimentos de extrema redenção, entre movimentos de extrema culpa.

A mãe sabe muitas vezes das causas mais violentas que justificam a sua maternidade. A sua suposta dificuldade. A mãe enquanto mulher sente-se repartida, e só assim se retrata. Por dentro. Na sua geografia.

A mãe conforta-se no aconchego que dá ao filho. Reparte-se.
As horas passam nesta relação, num ritmo que não é cardíaco, mas que se vive no coração.

A mãe transporta nas mãos o filho e todos os objectos de aconchego. Transporta-se sem qualquer noção do seu peso, da sua exacta medida nisto tudo.

À medida que o filho cresce, a mãe afasta-se do seu passado e encontra nas causas presentes o sentido da sua penitência. Tem então que saber transformar toda a dor. Trata-se do acrescento de duas letras depois de subtrair uma. Porque queremos falar de amor.
 



Publicado por marta às 22:48
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2 comentários:
De Ze a 25 de Novembro de 2008 às 11:59
----que lindo...como diz Mircea eliade...o mapa transforma-se em território...tacteando as palavras...nessa geografia interior da Vida do Utero ...na transmutação do Amor.....as mães são precisas ...as mãos, mesmo que em olhares soslaios de retrovisor ou de espera...as mães são os olhos das almas que elas pressentem...olham(se) no amar, nos filhos nos olhos nas almas nos carros no movimento na despedida na expansão das vidas e das casas....


De Anónimo a 1 de Fevereiro de 2009 às 21:43
so li agora.. como dizer-te que és a melhor das ouvintes. a melhor das tradutoras de corações alheios?

ana


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